Fui natalense: 10 anos em ritmo de Xadrez

Visão geral da cidade de Natal – RN (fonte)
Muitas vezes, numa partida, posicionamos nossas peças na melhor casa, fica uma maravilha! A gente para de se preocupar com ela, pois ali exerce seu máximo poder de ação, domina espaço importante para o ataque, inibe o avanço de forças inimigas.

Porém, para arrematar a partida, ou para defender um contra-ataque repentino, é comum ser necessário remover a peça da casa ideal, e a teima ressentida pode causar até mesmo a derrota.

Ao avançar no Xadrez da vida, precisei deixar a cidade onde nasci, qual peão que avança da casa inicial para jamais retornar. Quis a dinâmica dos acontecimentos que fosse parar na cidade de Natal no ano de 2006, e lá permaneci pelos últimos dez anos.

Com o tempo, fui criando identidade com a nova cidade e lá completei importantes lances do meu desenvolvimento pessoal: primeiro emprego, primeira casa, casamento e filhos. Em especial, retomei a prática enxadrística séria, que havia interrompido havia pelo menos outros dez anos.

Se o jogo de Xadrez tem sido tantas vezes utilizado como metáfora da vida, não me parece estranho descrever esses meus anos como lances de uma grande partida contra o acaso (ou ajudado por ele).

O Xadrez tem três fases, Abertura, Meio-jogo e Final. Quantas terá a vida?

Nos primeiros anos, vivemos a fase da Abertura, com um desenlace ligeiro, seguindo movimentos mais ou menos conhecidos e comuns: engatinhar, andar, frequentar a escola, se formar. Frequentemente, não faz mal se perdemos um ou dois anos em experimentos menos convencionais, algo como um gambito de dias.

Então, já adultos, nos sentimos prontos, com vigor, cheios de habilidades afiadas. Se admitirmos que este rol de qualidades pode se comparar com a presença da Dama no tabuleiro, sem dúvida estamos falando do Meio-jogo. Aqui, os planos estratégicos amiúde miram longe uma vida tranquila e abastada no final, mas é preciso estar atento para não esquecer nenhum detalhe tático: uma oportunidade, uma conta a se pagar, uma data de aniversário!

As peças vão sumindo, trocamos entusiasmo e habilidades, por outras vantagens como sabedoria, experiência. Fortalecemos nossa personalidade com o passar dos anos e fatalmente chegaremos à fase Final, da partida, dos dias, do tempo. O que nos trarão os frutos de nossas escolhas, nossas jogadas? Muitas vezes, basta um peãozinho de vantagem que chega livre à borda adversária.

Foram dez anos em Natal, uma cidade onde entendi muito mais sobre o meu Xadrez e sobre as nuances da existência. Acabo de me retirar duma posição que pensava ser ideal; a tática se impôs, foi preciso jogar conforme. Ainda é pleno meio-jogo, o final é ainda distante, mas algumas peças já se foram, a cadeia de peões, as linhas gerais de ação e possibilidades mais óbvias já estão traçadas.

Este autor pondera sua próxima jogada.
Campeonato Estadual, Natal-RN, 2010 – 1ª rodada.
É hora de seguir o conselho de Neruda e sentar com paciência, não para buscar a luz caída no poço, mas para rever os planos, avaliar a Posição com carinho, escolher o próximo movimento.

Vejo daqui variantes diversas e já não preciso enxergar tantas jogadas à frente. Uma nova casa ideal está somente a uma ideia de distância.

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O Xadrez e a dissonância cognitiva

Passamos por um momento difícil no Brasil. Existem grupos com ideologias díspares que exageram suas diferenças de forma a incitar uma divisão na população, o tal do ‘nós x eles’. Cada lado feliz em conferir ao outro o título de ‘Idiota’ (com I maiúsculo mesmo).
 
Pensava nisso após escutar o episódio Dissonância Cognitiva, do podcast Café Brasil, de autoria do escritor Luciano Pires. Neste episódio ele nos fala, entre outros pontos, da importância de se manter atento e não correr o risco de ficar petrificado numa posição ao evitar, até mesmo, ler certos autores ou se permitir escutar opiniões divergentes da sua própria.
 
O Xadrez é um campo de atuação humana onde a convivência com a dissonância cognitiva faz parte da rotina.
 
O enxadrista não pode bater o pé e dizer: agora só jogo com as brancas, ou só com as pretas. Ele pode até fazer birra e nunca jogar nenhuma abertura do Peão do Rei, ou nunca usar a Defesa Siciliana, mas essa atitude jamais fará dele um grande mestre, sequer um mero candidato a mestre.
 
Por que não? Estranharão alguns. Porque na riqueza e diversidade de posições possíveis, na experiência em combater cada uma delas, ora de brancas, ora de pretas, ora atacando, ora defendendo, é que o enxadrista tem a oportunidade de criar sua própria cultura sobre o jogo. É isso que lhe permite aguçar seu estilo ao buscar nos elementos diversos do jogo aqueles que mais se adaptam ao seu temperamento.
 
Se observamos esta característica do Xadrez, que é a mesma da vida, quando gira o tabuleiro, troca-se de lado, muda-se a perspectiva, é preciso jogar com as peças que pouco antes eram nossas adversárias, defender posições nas quais há instantes liderávamos um ataque. O Xadrez é a luta para provar a cada lance que o idiota é o outro, apenas para, na outra partida, mudar de lado, e quiçá admitir que o idiota é você mesmo.
 
Há casos famosos de jogadores que deliberadamente não usam determinadas linhas de abertura de partida por questões, digamos, ideológicas. Um caso interessante era o recentemente falecido GM Viktor Korchnoi.
 
Korchnoi teve uma vida difícil, órfão na União Soviética durante a Segunda Guerra Mundial, depois dissidente do regime e desertor soviético. Em sua trajetória acumulou algumas inimizades famosas no ciclo enxadrístico, uma das mais notórias foi com o GM e ex-campeão do mundo Tigran Petrosian.
 
Petrosian, Korchnoi e Vasyukov (1961) – só o Xadrez os unia
O cisma entre eles merece uma postagem exclusiva, mas o que faz a ligação com o assunto em questão é que Korchnoi jamais jogava lances teóricos introduzidos na prática magistral por Petrosian. Lembro duma ocasião em que li uma partida comentada por Korchnoi que, de negras, enfrentava o então promissor GM espanhol Pablo San Segundo. Era uma Defesa Índia da Dama (DID) e, na quarta jogada, a branca escolheu seguir com 4. a3: “Este lance introduz o Sistema Petrosian da DID. Eu jamais joguei esta posição de brancas, pois seu propositor foi um inimigo de minha vida”.
 
Acredito que, tecnicamente, o grande Korchnoi percebia o valor da contribuição teórica de seu antagônico confrade, porém, por uma forte razão pessoal, conscientemente boicotava o rival. A raiva era tanta que o pobre San Segundo (25 anos de idade na época) transformou-se, momentaneamente, no antigo desafeto de Korchnoi (então com 64 anos de idade) e foi exemplarmente punido no tabuleiro.
 
Apesar de sua carreira tremendamente vitoriosa, talvez por esse tipo de licença técnica é que Korchnoi jamais tenha sido Campeão do Mundo.
Há de se ter cuidado com a dissonância cognitiva. A armadilha de simplesmente negar o lado dissonante pode nos tornar o ‘Idiota’ da história, e quem sabe até seja o que nos atrapalhe a enxergar e chegar mais longe.

Quando éramos reis: o princípio do fim da hegemonia humana no Xadrez

Um dos primeiros computadores dedicados ao jogo de xadrez.
Computador de Xadrez Belle (ChessGames.com)
Algumas vezes, temos a fortuita junção de tempo e disposição para rever velhos livros ou revistas de xadrez. Tenho aqui uma antiga edição de New in Chess de 1992, com uma rica reportagem sobre o Torneio Internacional Ciudad de Linares daquele ano.
O certame foi jogado pouco antes da fase semifinal do Torneio de Candidatos e contava com a presença dos quatro semifinalistas (Karpov, Short, Yusupov e Timman) além do magnífico campeão do mundo à época, Garry Kasparov. O ano de 1992 foi marcante para a história do Xadrez, pois, pela primeira vez desde que perdera o título, Karpov não foi finalista da competição de Candidatos e, assim, perdeu a chance de desafiar novamente Kasparov pela coroa mundial.

Folheando a extensa reportagem, chamou-me a atenção uma partida analisada pelo GM Jan Timman, na qual ele venceu o GM inglês Jon Speelman. A princípio, fiquei interessado pela abertura, um Gambito da Dama recusado que acabou na Estrutura de Peões de Carlsbard e uma clássica luta de ataque das minorias vs. contra-ataque na ala do Rei.

A partida é muito interessante. As pretas certamente perderam oportunidades táticas de finalizar seu oponente e acabaram por cair num final inferior: branca com par de bispos e rei, contra rei e cavalo das pretas.

Na época, ainda se interrompiam as partidas após cinco horas de jogo e só a retomavam no dia seguinte. Timman menciona em seus comentários que lembrou que o computador enxadrista chamado Belle (construído por Ken Thompson, o mesmo que ajudou a criar o sistema operacional UNIX)  havia provado em 1983 (!) que esse tipo de final era sempre ganho para o lado mais forte, uma informação que seu adversário também conhecia. Ele, então, recorreu a análises sobre o final fornecidas via FAX (!) por um colaborador, enquanto Speelman não conseguiu obter o mesmo material. Timman afirma que conhecer o teor das análises ajudou bastante para obter a vitória (mas nega que tenha vencido com a ajuda do computador). Apesar da revisão, Timman ainda admite ter cometido imprecisões que, houvesse Speelman jogado melhor, poderia ter sido impossível vencer dentro do limite de 75 lances (na época) antes de ser declarado empate.

Uma fortaleza de xadrez num final de dois bispos e rei contra cavalo e rei, estudada por Kling & Horwitz em 1851.
Proposição original de Kling & Horwitz (Chess Studies, 1851)
Proposição original de Kling & Horwitz (Chess Studies, 1851)
O final de dois bispos contra cavalo foi estudado por dois mestres do século XIX, Kling e Horwitz, que haviam demonstrado em 1851 que o lado mais fraco alcançava empate através da construção de uma “fortaleza” posicionando o cavalo em uma das casas b2, b7, g2 ou g7.  A descoberta de Belle, no entanto, era que, a partir da posição mostrada acima, havia um método destruir esta fortaleza, e portanto o bando forte venceria sempre.
O xadrez é tão rico que mesmo um dos maiores jogadores do Mundo, em seu auge, reconhece nos comentários da partida que há muitas posições que são um completo mistério, mesmo para Grandes Mestres: “[…] qual jogador de Xadrez entende esse tipo de final?”.
Os cérebros eletrônicos já começavam a ensinar os mestres humanos e a corrigir antigos conceitos e verdades do nosso jogo tidas como absolutas ao longo dos séculos.
Por causa dos computadores, desde 1996 não se pratica mais o adiamento de partidas. Em 1997, Kasparov inclinava seu rei contra Deep Blue (um sucessor direto de Belle), a primeira derrota em match do ‘Ogro de Baku’. Hoje, reinam absolutos os cérebros de silício, que se tornaram professores dos Grandes Mestres, o que tem tornado o xadrez humano muito mais profundo que antigamente.

Rafael Leitão, um GM de Visão

No auge da carreira, cheio de conquistas no xadrez, Rafael fez algo que poucos GM’s brasileiros fizeram: colocar em risco seus resultados como jogador e resolver empreender na área de educação enxadrística.

Já tem um tempo que estou pensando em escrever sobre o GM Rafael Leitão e sua excelente iniciativa de fundar a Academia Rafael Leitão.

Rafael, nordestino, natural de São Luís – MA, é referência no xadrez brasileiro desde sua infância, quando foi campeão mundial pré-infantil (sub-12) aos 11 anos de idade, frente a nomes como Peter Leko (que anos depois foi vice-campeão mundial absoluto). Anos mais tarde, Rafael foi campeão mundial juvenil (sub-18). Atualmente é o número 1 do Brasil, além de ter-se consagrado campeão nacional inúmeras vezes.

No auge da carreira, cheio de conquistas, Rafael fez algo que poucos GMs brasileiros fizeram: colocar em risco seus resultados como jogador e resolver empreender na área de educação enxadrística.

Em nosso país, no xadrez, bem como em outros esportes, não temos tradição de formar talentos, eles aparecem por esforço pessoal, como o caso de Mequinho na década de 1960, e de todos os outros grandes mestres brasileiros.   Todos sabem que Mequinho chegou a ser o 3° melhor enxadrista do mundo na década de 1970. Ele estava obcecado pelo desejo de se tornar campeão do mundo, mas ficou muito doente e se afastou por mais de 10 anos. Ao retornar às competições, jamais voltou ao mesmo nível, mas continua com a ideia fixa de ser campeão mundial. Perdemos, assim, a chance de ter um dos melhores jogadores brasileiros dedicado a ensinar às novas gerações.

Essa lacuna está a ser preenchida pelo GM Leitão, que demonstra ver em seus cálculos muitos lances a frente, não somente no tabuleiro! E eu acredito que esta iniciativa será próspera e longeva, por algumas qualidades que são notórias em nosso campeão: amor ao jogo, didática e seriedade perante o jogo.

Nas poucas vezes em que pude ver Rafael jogando, me impressionei sempre com a postura dele, de longe o que demonstrava mais seriedade jogando, mesmo frente a jogadores bem mais fracos.

Parabéns GM Leitão, essa sua iniciativa é, sem dúvidas, o impulso necessário para o crescimento da qualidade enxadrística em nosso país.

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O Xadrez do reencontro

Fonte: http://www.themarysue.com/names-of-chess-pawns/ 
Encontrar velhos amigos, pessoas do nosso passado que por algum motivo ficamos anos sem rever, reaviva antigas sensações e emoções. Por alguns instantes esquecemos que o tempo, assim como os peões no xadrez, só tem um sentido, e parece que temos ainda toda a vida pela frente, todos os peões em suas casas iniciais.

O tempo se move conforme as escolhas que fazemos, se jogamos um peão uma ou duas casas, ele jamais retrocede. Uma escolha na vida raramente tem volta.

Hoje, nossas vidas tomaram seus rumos, os rostos de todos guardam semelhanças inconfundíveis com as crianças que fomos. No reencontro, discutimos nosso presente, lembramos do passado, somos todos enxadristas mostrando como jogamos a partida da nossa vida até aqui, expondo nossos planos, orgulhosos dos acertos, críticos com os erros, esperançosos com os lances a frente.

Jogamos o xadrez da vida como quem aprendeu agora mesmo os rudimentos do jogo, somos experientes iniciantes que, por um momento belo de confraternização, se sentem recomeçando, capazes de tudo novamente, por algum breve lapso, uma doce ilusão.

Na despedida, tudo retorna ao ponto atual, peões avançados, escolhas tomadas, dias vividos. Já ansiamos o novo reencontro, uma nova trégua, quando poderemos novamente brincar de retornar os peões, e repetir todos os lances, uma vez mais.

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