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LQI – Há 10 anos, mais que um blog sobre xadrez
Lances Quase Inocentes (LQI) é um blog de xadrez. Contos, crônicas, entrevistas, cinema e dicas de conteúdo. Campeões mundiais de xadrez, história do xadrez, partidas e jogadas mais famosas da história.
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Dr. Em. Lasker x J. H. Bauer, Amsterdam 1889
Posição após 13. … a6
Algumas partidas se tornam famosas por belas combinações, por seu peso para o resultado de um torneio ou por mudar a vida de alguém. Em 1889, o então promissor aspirante ao título de Campeão Mundial, Dr. Emanuel Lasker, jogou contra Johan Bauer (forte mestre austríaco à época) uma partida que se celebrizou por ter popularizado um novo tema tático, belo e poderoso. Se a Partida Imortal se eternizou pelo duplo sacrifício de torres, esta entrou para a história por causa de um sacrifício duplo de bispos.
Campeão Mundial por 27 anos (de 1894 a 1921, um recorde), Lasker foi um dos mais fortes enxadristas da história. Além disso, foi um dos últimos campeões com múltiplos talentos, sendo doutor em matemática, filósofo e grande mestre de xadrez. Lasker, aliás, estava no grupo de cinco jogadores aos quais o Czar russo Nicolau II se referiu ao cunhar o termo ‘Grande Mestre’, quando se dirigia aos cinco melhores colocados no Torneio de São Petesburgo de 1914. Um título que se tornou tão significativo que foi oficialmente adotado pela federação internacional anos depois.
Johann Hermann Bauer deixou pouca informação a seu respeito e, no xadrez, foi mais um a seguir a triste sina de Kieseritzky, passando à posteridade como o derrotado de uma partida fantástica.
Na posição acima, as brancas possuem vantagem de espaço e mobilidade plena de suas peças. Especialmente o par de bispos, que exerce forte pressão sobre o esconderijo do rei negro, tal dois canhões contra uma muralha indefesa. Porém, sem uma rápida providência, as negras podem avançar seu peão da dama, já com forte ação na grande diagonal branca, equilibrando a posição.
Lasker encontrou uma continuação avassaladora: 14. Ch5! C×h5 (se 14 … d4 15. B×f6 B×f6 16. Dg4 Rh8 17. Tf3 e5 18. B×h7 … com forte ataque) 15. B×h7+! R×h7 (se não tomar o bispo, é mate em 4 jogadas, fica como desafio descobrir) 16. D×h5+ Rg8 17. B×g7 R×g7 (novamente, não tomar o bispo leva a um mate forçado em… 8 jogadas!) 19. Dg4 + Rh7 20. Tf3 … As pretas são forçadas a entregar material de volta para não levar mate e a partida se decide facilmente para as brancas. 20. … e5 (única) 21. Th3+ Dh6 22. T×h6 R×h6 22. Dd7 … (retomando um dos bispos) 22. … Bf6 D×b7 e as pretas abandonaram 14 lances depois.
Depois desta partida, o sacrifício do par de bispos contra o roque se tornou um tema muito conhecido (inclusive, há um livro a respeito) que deve fazer parte do repertório tático de todo jogador, sob risco de ser pego desprevenido, como já se viu até mesmo em outros embates magistrais: Alekhine x Drewitt (1923) e Nimzowitsch x Tarrasch (1914). Este último, aliás, recebeu Prêmio de Beleza no Torneio de São Petesburgo (já citado acima). Conta-se que, quando foi votado o prêmio, Dr. Tarrasch (que nutria por Lasker um profundo desafeto) perguntou se ele votaria por sua partida, ao que Lasker (em 1914 já Campeão do Mundo) teria respondido: “Claro que sim, sem dúvidas! Afinal uma partida assim só se vê a cada… 25 anos!”.
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‘Mas, vocês sabem como analisar variantes?’ Eu perguntei aos meus ouvintes e, sem dar-lhes tempo de responder, eu continuei. ‘Vou mostrar-lhes como analisar variantes e se por acaso eu estiver errado, então me interrompam. Vamos supor que numa dada posição em sua partida, você precise escolher entre dois lances Td1 ou Cg5. Qual deles você deve jogar? Você senta confortavelmente eu sua cadeira e inicia a análise dizendo silenciosamente para si os lances possíveis: ‘Bem, eu poderia jogar Td1 e ele provavelmente jogará … Bb7, ou poderá tomar meu peão da coluna a, que agora estará desprotegido. O que depois? Esse nova posição me agrada?’. Você segue uma jogada além em sua análise e então faz uma cara de desagrado – o lance de torre não parece bom. Então, você passa ao lance de cavalo. ‘E se eu jogar Cg5? Ele pode expulsar o cavalo com … h6, eu jogo Ce4, ele captura o cavalo com o Bispo. Eu recapturo, e ele ataca minha dama com sua torre. Isso não parece muito bom… então o lance de cavalo não é tão bom. Vamos checar o lance de torre de novo. Se ele joga … Bb7 eu posso responder com f3, mas o que fazer se ele capturar meu peão de a? O que posso fazer em seguida? Não, o lance de torre não é bom, eu tenho que checar o lance de cavalo novamente. Então, Cg5 h6; Ce4 B×e4; D×e4 Td4. Não, não é bom! Eu não devo mover o cavalo. Tente o lance de torre mais uma vez. Td1 D×a2’ . Neste ponto, você olha para o relógio. ‘Meu Deus, já se passaram 30 minutos pensando se movo a torre ou o cavalo’. Se você continuar assim, acabará nos apuros de tempo. Subitamente você se depara com uma ideia feliz – por que mover a torre ou o cavalo? ‘Que tal Bb1?’. E, sem análise alguma, você move o bispo, assim mesmo, praticamente sem nenhuma consideração.
Alexander Kotov (1971) – Think Like a Grandmaster (tradução livre)
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Mestres, mesmo campeões mundiais, podem ser presas dos efeitos nocivos do pensamento acelerado. (Fonte: Google, Fischer 1972) |
O tabuleiro real é ponto de encontro para amizades e conversas (acervo do autor – amigos enxadristas do RN) |
Pouco foi falado, além das já conhecidas linhas do Gênesis, sobre a curiosa criação do homem e da desobediência primordial que nos tornou a vida tão árdua desde então.
Conta-se que o Criador, irado por ter visto sua única proibição ser ignorada por suas criaturas, lançou sobre eles (e seus sucessores) incontáveis maldições, sendo a mais famosa delas a necessidade de trabalhar de sol a sol pelo pão. Mas o próprio narrador do livro dos inícios cala ao omitir aquela que talvez tenha sido a pior das maldições oriundas do pecado original: a que obrigou homem e mulher, enquanto vida eles tiverem, a pensar sem descanso!
A vida no Éden era realmente paradisíaca. O Primeiro e a Primeira faziam o que bem queriam, comiam, dormiam e tornavam a comer, desfrutavam do convívio regular com o Criador paternal e com alguns anjos que por lá apareciam e com eles compartilhavam o privilégio de poder suspender a atividade mental, ainda que em plena vigília! Um conceito difícil de entender nos dias de hoje, obviamente o pensar jamais levará ao não pensar.
Porém, como o apetite dos jovens fosse implacável, e todas as frutas do paraíso terrestre já se tornassem enjoativas, a mulher começou a rodear a árvore central, aquela mesma cujos vistosos frutos eram proibidos.
A serpente, vil por natureza, estava invejosa da boa vida que levavam os preferidos do Criador (quem diria poder suspender o pensamento!?, era sua maior indignação). Somente a serpente sabia que, após comerem dos frutos proibidos, os humanos perderiam as muitas vantagens que tinham. Ao ver o olhar da mulher para a árvore, a serpente tratou de confundir‐lhe o juízo, e ela acabou por provar do fruto.
A mulher não queria pecar sozinha e logo ofereceu um pedaço ao esposo, que se sabia de qual fruto se tratava, nem o narrador do livro dos inícios soube dizer.
Sabe-se apenas que ambos envergonharam-se de estarem nus, numa época em que não havia academias de ginástica, musculação, nem treinadores personalizados, e correram atrás de folhas para se cobrir.
Naquela noite não dormiram. Não por culpa ou pela coceira que as novas vestes causavam, mas porque não conseguiam controlar a enxurrada de pensamentos que teimavam em vir sem sossego.
Na manhã seguinte, o Criador estranhou, mais do que os saiotes verdejantes, as olheiras profundas que suas criaturas humanas apresentavam, e passou a ler seus pensamentos, percebendo que não paravam nem um segundo!
– Comeste da Árvore!?
– Sim, mas foi ela quem me deu…
– Sim, mas foi a serpente que me convenceu …
O restante já sabemos, só não conseguimos parar de pensar sobre isso!
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Pirâmide de Necessidades de Maslow (wikipédia) |